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COMPORTAMENTO E ECONOMIA

PETS GANHAM STATUS DE FAMÍLIA E IMPULSIONAM UM DOS MERCADOS QUE MAIS CRESCEM NO BRASIL

Estudo da Esalq/USP revela como a presença cada vez maior de animais de estimação nos lares brasileiros está transformando hábitos de consumo, movimentando bilhões de reais e redesenhando a economia do setor pet
Pesquisa da Esalq/USP mostra que os animais de estimação ocupam cada vez mais espaço nos lares brasileiros e impulsionam um mercado que movimenta bilhões de reais por ano. Foto: Divulgação

O Brasil está vivendo uma mudança silenciosa dentro de casa, mas que produz reflexos cada vez mais visíveis na economia. Nas últimas décadas, enquanto o número de filhos por família diminuiu, os animais de estimação passaram a ocupar um espaço cada vez mais importante nos lares brasileiros. Mais do que companheiros, cães, gatos, aves e outros animais passaram a integrar o núcleo familiar, influenciando decisões de consumo, impulsionando novos serviços e fortalecendo uma cadeia econômica que movimenta bilhões de reais todos os anos.

Essa transformação foi analisada em uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). O trabalho é assinado pela economista Clécia Ivânia Rosa Satel, sob orientação do professor Rodolfo Hoffmann e com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. O estudo investigou como a crescente presença dos animais de estimação influencia o orçamento das famílias brasileiras e o desempenho econômico do setor pet ao longo dos últimos anos.

Para compreender esse cenário, a pesquisadora analisou dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), abrangendo o período de 2002 a 2018, além de informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços referentes aos anos de 2002 a 2024. O objetivo foi mapear tanto os hábitos de consumo das famílias quanto a evolução das atividades econômicas relacionadas à produção de rações, produtos e serviços destinados aos animais de estimação.

Segundo Clécia Satel, a pesquisa permitiu acompanhar uma mudança comportamental que acompanha transformações demográficas observadas em todo o país. Conforme destaca a economista, enquanto o número de filhos por família vem diminuindo nas últimas décadas, a presença dos animais de estimação cresce de forma consistente, refletindo novas dinâmicas familiares e novas formas de vínculo afetivo.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Estimativas recentes da Quaest e do Instituto Pet Brasil apontam que o país ocupa atualmente a terceira posição mundial em população pet, reunindo entre 150 e 160 milhões de animais. Os dados do Censo Demográfico de 2022 reforçam essa tendência ao indicar que os domicílios brasileiros possuem, em média, 2,2 animais de estimação, índice bastante próximo da média de 2,8 pessoas por residência.

Essa proximidade entre pessoas e animais vem alterando também a forma como as famílias organizam seus gastos. O levantamento mostra que, no início dos anos 2000, aproximadamente 71,7% das despesas relacionadas aos pets eram destinadas à alimentação, principalmente à compra de rações. Outros 24,5% correspondiam aos cuidados com a saúde animal. Ao longo dos anos, porém, esse perfil começou a se diversificar.

Em 2017 e 2018, alimentação e saúde continuavam representando a maior parte das despesas, somando 70,5% dos gastos. No entanto, novas categorias passaram a ganhar espaço nos orçamentos familiares. Serviços de higiene, hospedagem, certificação de raças e planos de saúde veterinários tornaram-se cada vez mais presentes, evidenciando uma mudança na relação entre tutores e animais.

“O valor médio mensal por domicílio passou de R$ 8,31 em 2002-2003 para R$ 20,42 em 2017-2018”, informa Clécia Satel. Para a pesquisadora, esse crescimento não está relacionado apenas ao aumento do número de animais nos lares brasileiros, mas também à ampliação da oferta de serviços especializados e à disposição dos tutores em investir mais no bem-estar dos seus companheiros.

O estudo também identificou diferenças importantes no comportamento de consumo entre famílias de diferentes faixas de renda. De acordo com a economista, famílias com maior poder aquisitivo costumam direcionar recursos para serviços considerados mais sofisticados, como hospedagem, adestramento e planos de saúde animal. Já entre as famílias de menor renda, os gastos permanecem mais concentrados em itens essenciais, especialmente alimentação.

As desigualdades regionais também aparecem de forma expressiva nos resultados da pesquisa. Distrito Federal, São Paulo e Santa Catarina figuram entre as unidades da federação com os maiores gastos médios per capita destinados aos animais de estimação. Essas localidades se destacam não apenas pelo volume de consumo, mas também pela diversidade de serviços disponíveis para os tutores.

Para garantir precisão às análises, o estudo utilizou diferentes metodologias estatísticas, incluindo análises descritivas, cálculos de elasticidade-renda, estimativas de concentração de gastos e o modelo Tobit, amplamente empregado em pesquisas econômicas quando parte dos entrevistados não registra despesas em determinadas categorias. A combinação dessas ferramentas permitiu uma compreensão mais ampla das mudanças observadas ao longo das últimas duas décadas.

O avanço do setor pet também pode ser observado além das fronteiras brasileiras. As exportações de produtos e rações para animais apresentaram crescimento expressivo nos últimos anos. Em 2020, o valor exportado foi de US$ 320,5 milhões. Em 2024, esse montante alcançou US$ 502,7 milhões, representando uma expansão de 56,8% em apenas quatro anos.

No mercado interno, os números também demonstram a força da atividade econômica. Segundo os dados analisados pela pesquisa, o faturamento do setor pet brasileiro atingiu R$ 74,4 bilhões em 2024. A expectativa para 2025 é de crescimento moderado, chegando a R$ 77,9 bilhões.

Para Clécia Satel, os números reforçam a importância econômica de um segmento que continua em expansão. Segundo a pesquisadora, trata-se de um mercado que gera impactos relevantes sobre a economia nacional, movimentando uma extensa cadeia produtiva que envolve fabricação de alimentos, medicamentos, produtos de higiene, serviços veterinários, hospedagem, transporte e diversas outras atividades.

Mais do que retratar a evolução de um mercado, o estudo oferece uma leitura sobre as transformações sociais em curso no Brasil. Os resultados mostram que os animais de estimação passaram a ocupar uma posição cada vez mais central na vida das famílias, influenciando comportamentos, hábitos de consumo e decisões financeiras.

“Os animais de estimação deixaram de ser vistos apenas como companhia e passaram a ocupar o lugar de verdadeiros membros da família”, conclui Clécia Satel. Para a economista, essa mudança ajuda a explicar o surgimento de novos serviços especializados e o fortalecimento contínuo de toda a cadeia produtiva ligada ao segmento. A expectativa é que futuras edições da Pesquisa de Orçamentos Familiares passem a registrar despesas ainda mais específicas, como creches, passeios e atividades recreativas para pets, ampliando o entendimento sobre um fenômeno que une transformações sociais, vínculos afetivos e impactos econômicos de grande escala.

Ao revelar como os lares brasileiros estão mudando, a pesquisa demonstra que o crescimento da população pet vai muito além de uma tendência de comportamento. Trata-se de um movimento capaz de influenciar padrões de consumo, gerar oportunidades econômicas e redesenhar a relação entre famílias e animais em um país que já figura entre os maiores mercados pet do mundo.

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