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CONSERVAÇÃO DOS RIOS

MICROPLÁSTICOS EM PEIXES DE MINAS REVELAM MAIS DE 20 ANOS DE CONTAMINAÇÃO NOS RIOS E ACENDEM ALERTA PARA A SEGURANÇA ALIMENTAR

Pesquisa da UFLA identifica presença contínua de microplásticos em peixes da bacia do Rio das Velhas desde 1999 e mostra que urbanização, agropecuária e características dos ambientes aquáticos influenciam diretamente a contaminação
Pesquisa da UFLA identificou a presença de microplásticos em peixes da bacia do Rio das Velhas ao longo de mais de duas décadas, revelando diferenças de contaminação entre áreas urbanizadas, preservadas e regiões com influência agropecuária. Foto: Divulgação.

Os microplásticos já fazem parte da realidade dos ecossistemas aquáticos brasileiros. Invisíveis a olho nu na maioria das vezes, essas partículas com menos de cinco milímetros estão presentes nos rios, lagos e reservatórios e, consequentemente, nos organismos que vivem nesses ambientes. Agora, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (UFLA) trouxe um retrato preocupante e ao mesmo tempo valioso para a ciência: peixes da bacia do Rio das Velhas, um dos principais afluentes do Rio São Francisco, vêm acumulando microplásticos há pelo menos duas décadas.

O estudo analisou exemplares coletados desde 1999 e preservados em coleções científicas, permitindo aos pesquisadores reconstruir uma espécie de histórico da contaminação ao longo do tempo. O trabalho foi conduzido pela doutoranda Marina Ferreira Moreira, no Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da UFLA, sob orientação do professor Paulo dos Santos Pompeu.

A utilização desse material histórico permitiu uma abordagem pouco comum em pesquisas ambientais. Em vez de observar apenas a situação atual dos rios, os cientistas conseguiram avaliar como a presença de microplásticos evoluiu ao longo de mais de 20 anos.

Segundo Marina Ferreira Moreira, os peixes preservados funcionam como verdadeiros registros biológicos do passado.

“Esses exemplares funcionam como uma cápsula do tempo. Eles registram no próprio corpo o nível de contaminação do período em que viveram”, explica a pesquisadora.

A afirmação ajuda a compreender a importância da pesquisa. Enquanto muitos estudos analisam amostras recentes, este trabalho possibilitou observar tendências históricas e identificar mudanças relacionadas ao uso do solo, à urbanização e às atividades desenvolvidas ao redor dos cursos d’água.

CONTAMINAÇÃO NÃO É IGUAL EM TODA A BACIA

Um dos principais resultados da pesquisa foi a constatação de que a presença de microplásticos varia significativamente de acordo com as características de cada região da bacia hidrográfica.

No Rio das Velhas, que percorre áreas densamente urbanizadas da Região Metropolitana de Belo Horizonte, os níveis de contaminação encontrados nos peixes permaneceram relativamente estáveis desde o final da década de 1990. Isso indica que a presença dessas partículas já estava consolidada no ambiente há muitos anos.

Em contrapartida, no Rio Cipó, localizado em uma área mais preservada dentro do Parque Nacional da Serra do Cipó, os pesquisadores observaram uma tendência de redução da contaminação ao longo do período analisado.

Já nas regiões mais a jusante da bacia, distantes das nascentes e sob maior influência de atividades agropecuárias, o cenário foi diferente. Nesses locais, a pesquisa identificou uma tendência de aumento da presença de microplásticos nos organismos avaliados.

Os resultados evidenciam que fatores ligados ao uso e ocupação do solo podem influenciar diretamente a quantidade de partículas plásticas disponíveis no ambiente aquático.

LAGOAS E RESERVATÓRIOS FUNCIONAM COMO ÁREAS DE ACÚMULO

Outro aspecto importante identificado pelo estudo está relacionado às características físicas dos ambientes aquáticos.

Os pesquisadores verificaram que locais com águas mais lentas ou paradas, como lagoas marginais e reservatórios, tendem a acumular maiores quantidades de microplásticos. Nessas condições, as partículas permanecem por mais tempo no ambiente, aumentando a exposição dos organismos aquáticos.

Esse comportamento transforma esses ecossistemas em verdadeiras áreas de retenção de resíduos microscópicos, criando condições favoráveis para que peixes e outros organismos entrem em contato com os contaminantes de forma mais frequente.

A descoberta reforça a necessidade de compreender não apenas a origem dos microplásticos, mas também como as características naturais dos corpos d’água influenciam sua distribuição.

PEIXES PEQUENOS AJUDAM A ENTENDER UM PROBLEMA GIGANTE

Para realizar o levantamento, os pesquisadores concentraram as análises em espécies de lambaris, peixes abundantes e amplamente distribuídos na bacia do Rio das Velhas.

Apesar de serem visualmente semelhantes e ocuparem ambientes parecidos, os resultados mostraram que nem todas as espécies responderam da mesma forma à contaminação.

Algumas apresentaram níveis mais elevados de ingestão de microplásticos, enquanto outras registraram índices menores.

A diferença chamou a atenção da equipe porque demonstra que utilizar apenas uma espécie como indicador ambiental pode não representar adequadamente a realidade de um ecossistema inteiro.

Os resultados sugerem que diferentes hábitos alimentares, comportamentos e características biológicas influenciam a forma como cada espécie interage com as partículas plásticas presentes na água.

TURBIDEZ DA ÁGUA TAMBÉM INTERFERE

O estudo apontou ainda que fatores ambientais podem afetar diretamente a ingestão de microplásticos pelos peixes.

Entre eles está a turbidez da água. Em ambientes mais turvos, onde a visibilidade é reduzida, espécies que dependem da visão para localizar alimento podem encontrar maior dificuldade para diferenciar organismos naturais de partículas plásticas.

Essa condição aumenta a probabilidade de ingestão acidental dos fragmentos, contribuindo para o acúmulo dos contaminantes nos organismos ao longo do tempo.

A observação demonstra como diferentes elementos do ambiente podem atuar conjuntamente para influenciar a exposição da fauna aquática aos resíduos plásticos.

DA ÁGUA À CADEIA ALIMENTAR

Embora os impactos dos microplásticos sobre a saúde humana ainda sejam tema de investigação científica em diversas partes do mundo, a presença dessas partículas em organismos que fazem parte da cadeia alimentar gera preocupação entre pesquisadores.

O consumo de pescado representa uma importante fonte de proteína para inúmeras comunidades, especialmente em regiões ribeirinhas e áreas onde a pesca possui relevância econômica e cultural.

Por isso, compreender como ocorre a contaminação e quais fatores favorecem o acúmulo dessas partículas é considerado fundamental para a conservação dos recursos hídricos e para a segurança alimentar.

“Os peixes são uma fonte importante de alimento para muitas comunidades. Entender onde e como ocorre a contaminação é essencial para pensar em conservação dos rios e segurança alimentar”, destaca Marina Ferreira Moreira.

A fala da pesquisadora reforça que o debate sobre microplásticos vai além das questões ambientais e alcança temas ligados à qualidade dos alimentos e à gestão sustentável dos recursos naturais.

NOVAS PESQUISAS JÁ ESTÃO EM ANDAMENTO

Os resultados obtidos abriram caminho para novas investigações dentro da própria universidade.

Atualmente, duas estudantes de iniciação científica estão ampliando os estudos para compreender como a contaminação ocorre em outros contextos ambientais. As pesquisas envolvem análises de peixes de córregos urbanos e também de espécies juvenis de piracema, aquelas que realizam migrações reprodutivas ao longo dos rios.

O objetivo é identificar de que forma diferentes ambientes, comportamentos e estratégias de vida influenciam o acúmulo de microplásticos.

A equipe também pretende incluir novas espécies nas análises, entre elas os cascudos, ampliando o conhecimento sobre os impactos da poluição plástica nos ecossistemas aquáticos brasileiros.

Os dados produzidos poderão contribuir para futuras estratégias de monitoramento ambiental e para a construção de políticas voltadas à preservação dos recursos hídricos, tema que ganha cada vez mais relevância diante do avanço da poluição por resíduos plásticos em diferentes regiões do país.

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